De repente, num segundo, a vida cai em cima de nós como uma chuva tropical, a qual não tem aviso, não tem previsão possível.
É curta e imponderável, sejam quais forem os nossos planos. Para o lixo com eles. "Nós fazemos planos e Deus ri-se deles".
Cancro. Tenho medo. Cada vez uma iminência mais próxima. Cada vez mais os sintomas. Posso tentar ignorar a probabilidade genética, de vários casos familiares próximos, um dos quais me levou umas das pessoas mais queridas. Tenho medo. Precisava que segurassem a minha mão e me dissessem, sejam quais forem os resultados, vai ficar tudo bem. Pode não ficar. E se não ficar? E se me tocar a mim, como eu intuo e sinto que vai tocar? O que faço?
A medicação que tenho, tenho, tenho, e estou a deixar de tomar. A medicação que é a minha bengala há tantos, demasiados, anos para os meus trinta e dois de vida, está tão entranhada no meu sangue, que me castiga por todo o meu recurso fácil a ela. A adição. Como resolvo? Como parar estes tremores, esta náusea, estas dores no corpo, esta constante cisão do meu pensamento, esta aniquilação do raciocínio? Esta sensação de impotência? Como estabilizar as minhas variações emocionais? Como não entrar em pânico com as decisões mais banais do dia a dia? A quem contar? Como esconder isto tudo, para que não me considerem menor? Como não afectar o meu trabalho, como não decepcionar os meus amigos, como guardar tudo para mim não incomodar ninguém? Ninguém entende. Ninguém entende o que é ser uma junkie por opção. Ninguém entende uma cara estranha ao espelho. Uma sombra do que já se foi.
Alzheimer. A minha mãe. Bipolaridade. Suicídio. Bronquite asmática crónica. Impotência. Deixá-la ir? Como agarrá-la a este mundo e mantê-la sempre perto de mim, racional e sensata, como sempre a conheci? Como não associar esta pré-disposição hereditária às minhas constantes variações de humor?
SOB (síndrome obsessivo compulsivo). Como ajudar o meu pai a controlar a raiva, o ódio, a agressividade perante uma almofada fora do sítio? Como perdoar que tenha descarregado sobre a minha mãe, da forma mais violenta e cobarde que existe? Como separar o amor e o ódio que se sente por alguém?
Como não me decepcionar quando as pessoas que mais gosto na vida não se preocupam com o que eu carrego às costas? Como fazer com que entendam que não consigo sozinha? Como não cansá-los quando eles chegam a conhecer de perto a imensa escuridão que preenche a minha alma?
Esconder. Talvez se conseguir esconder muito bem, as pessoas não cheguem verdadeiramente a conhecer o meu lado negro. Como as pessoas não têm a noção do esforço que eu faço para lhes dar apenas o que de bom me vai restando, não entendem como me entristece que me devolvam indiferença. Depois de todo o meu esforço. Depois de eu ter de me reinventar, lutar contra mim, e contra o resto, esquecer a merda com que já levei em cima, as desconsiderações, as pulhices, tudo o que, para alguém normal, seria puramente perda de tempo. Sempre acreditei que as pessoas valem a pena, enquanto virmos nelas uma luz que nos conforta. Por isso eu fiz um esforço. Ninguém, ninguém tem a noção do que me custou. Mas fi-lo sem arrependimentos. Para ainda me dizerem que sou fraca. Que me ponho a jeito.
Porra. Como fazer quando, a esta temperatura, tremo de frio, e tudo o que precisava para me aquecer, era um abraço, quando não há ninguém, ninguém, ninguém para abraçar?
Não quero estar zangada com ninguém, quando na realidade, só o estou comigo própria.
Desculpem-me qualquer coisa. Mas eu já não consigo ser melhor.