A cozinhar, sozinha, morno lá fora, cheiro invasor a festa e despreocupação, queimo um cigarro de vez em quando, intercalo com um episódio de uma série qualquer, pausa maior para o banho, para tratar do cabelo que anda a dever a sua sorte à tesoura, esfoliação, creme corporal, a lua a crescer devagarinho lá em cima, o telefone demasiado mudo, as redes sociais vazias, o silêncio mordaz, a rua a convidar, a vontade a vacilar, falta-me o vinho, era perfeito o vinho a acompanhar-me ao teclado, como pude eu esquecer-me disso, ocupo-me intensamente em não pensar, afugentar os pensamentos, ignorar o carro familiar ao lado do meu, no retorno a casa, os encontros casuais que disparam adrenalina, evitar a despedida, porque vai ser uma despedida, não tenho dúvidas, vai desaparecer a hipótese do acaso, todos os caminhos divergem, só a intenção terá lugar, se a deixassem, mas como a não deixamos, morre ainda criança.
Falta-me o vinho.
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