Monday, April 30, 2012

Fazer amor contigo

Tudo começa nos dois segundos anteriores ao teu beijo. O meu coração pára. Acelera. Pára. O meu corpo contrai-se. A minha pele arrepia-se. Aproximas os teus lábios dos meus. Invade-me o verão. A areia da praia, o mar salgado, o doce cheiro a liberdade. A temperatura. A vertigem. Os meus olhos procuram os teus, antes de se fecharem. E os teus estão lá. Sinto que sentes o mesmo. E que queres mais. Queres aproximar-te. Mas, como eu, não queres dar por terminados os instantes que antecedem ao turbilhão que nos espera. E cedemos. Os lábios tocam-se, a respiração perde o controlo. Os corpos magnetizam-se, um para o outro. E não se aproximam o suficiente, não há como. As línguas fundem-se, acariciam-se, brincam com as sensações que provocam. E o que provocam, o desejo não consegue apagar. As minhas mãos descobrem o teu corpo, fazem-no meu. Cada pedaço de ti é belo. Cada pedaço é um licor embriagante. As tuas mãos, fazem a mesma busca em mim. E sabem bem. O meu corpo vai ao encontro delas. O teu sabor mistura-se ao meu e torna-se num só. O meu cabelo dança no teu rosto numa medida em que não o queres afastar. Os teus dedos enrolam-se nele, e as minhas pernas sobre o teu corpo. Quero ser tua, e digo-to para que não subsistam dúvidas. As minhas palavras intimidam-te, mas tu gostas da minha franqueza. Todo o espaço é pequeno para o nosso amor. 
Peça a peça, a minha roupa escorrega de mim pela tua mão. Nem por um momento, os nossos lábios se afastam. Procuram um pescoço, uma orelha, um peito nu, cada sabor é único. Quero-te dentro de mim, e tu queres-me sentir só tua. Prolongamos a espera. Sem respiração, sem fôlego, sem razão, a tesão é um prolongamento da paixão. Queremos afogarmo-nos um no outro, e a espera amplifica tudo numa medida em que nenhum dos dois pensou ser possível.
Que me fazes mal, toda a gente já sabe, mas a razão porque continuo a escrever para ti, sobre ti, é um dos melhores mistérios guardados pela história da humanidade.
Ignoras-me. Os momentos em que decides dar-me atenção é por circunstância do conjunto. 
Muito honestamente, se já não consigo enumerar qualidades que me fazem gostar de ti, será que efectivamente gosto? Pergunto. A resposta. Não sei. Sinceramente ainda não sei. Sei que cada dia que passa dás-me, deliberadamente, mais um motivo para não te amar. Chegando aqui, chegando a agora, penso que estou a ficar sem eles. E se estou a ficar sem eles, deve ser porque afinal não gosto de ti. Talvez goste do que me proporcionas. E, proporção por proporção, cada um dá o que tem. E há quem me proporcione mais. E melhor. 
Não. Não é despeito. Sinceramente, não é. Se o fosse, assumia de peito. É talvez uma constatação. Porque raio ando eu a perder tempo contigo? Tempo que podia estar a oferecer a mim própria de ser proporcionada de forma mais completa? 
Não há racionalidade nestas equações.
O que tu não sabes, e que eu não conto - porque não é de todo o meu estilo - é que estás a perder o teu lugar. Há pessoas que dariam tudo para o ter. E eu, pela primeira vez desde ti, estou a considerar seriamente em cedê-lo. Quando isso acontecer, e tenho para mim que vai acontecer brevemente, não te vais perdoar de ter sido tão cobarde. Vais sentir a minha falta, da minha voz, do meu cheiro, do meu carinho, da minha preocupação, da minha paixão, dos meus olhos e de tudo o que te faça lembrar de mim como, por exemplo, o mar. Eu sei que o mar te lembra de mim. Não assumes. Nunca. És demasiado orgulhoso para sentimentalismos, mas eu sei que sim. 
Tens ideia de como vai doer? Eu explico. Vai começar no peito. Depois vai passar para os braços. Pouco depois para as pernas. Vai imobilizar-te. Uma náusea no estômago, uma tontura. Não te vais poder erguer. Uma vertigem, um chão vai desaparecer no infinito. Vais querer falar-me, para me contar, e não vais poder. Eu não vou estar lá. Todas as referências a mim serão uma memória longínqua de quando podias. E agora, não podes. Vais recolhendo pistas de mim, aqui e ali, eu vou estar feliz. E isso vai dar conta de ti. Vais saber-me nos braços de alguém. Entregar-me a outra pessoa. E a gostar. Vai aniquilar o teu raciocínio. Não vais saber o que fazer de ti. Para onde ir. Todos os programas vão ser insuficientes. Vãos. Só vais saber que estás vivo quando, sem querer, qualquer coisa, qualquer pessoa, te fiz lembrar de mim, e aí vai-te doer. Tudo de novo. O suficiente para saber que ainda sentes. Nesse instante, saberás que tiveste amor e que o deitaste para o lixo. A culpa, vai corroer-te.
Lamento, meu amor, mas já não te amo.

Thursday, April 26, 2012

Dois segundos

Todos os dias passam pessoas por mim. Gente nova, gente antiga, gente normal, gente bonita, gente feia e atraente, gente linda e sem atractividade nenhuma. Ás vezes fico embevecida pela multiplicidade de homens que me atraem. Dava qualquer coisa para provar os seus beijos. Só para descobrir como seria. Provavelmente  bastaria apenas uma palavra para mudar a vida. 
Mas não a de nenhum deles. A tua. Nada me tira mais a respiração do que a tua mão rasar a minha sem querer, nada me traz mais à terra e ao mundo que os teus olhos, e o meu reflexo neles. Não há nenhuma sensação que se iguale a acordar ao teu lado. Nada. 
Nem a sobremesa mais doce, nem o perfume mais exótico, nem a bebida mais forte, nem a cidade mais romântica, nem o homem mais sexy do mundo, nem o conjunto de todas essas coisas, chegariam para acelerar uma milésima de segundo o meu batimento cardíaco que os dois segundos antes de me beijares me fazem. Durante dois segundos eu sou a mulher mais forte, saltaria de um avião, de um comboio em andamento, atirar-me-ia para uma arena de feras, dançaria com a tribo mais primitiva. Mas não. Nesses dois segundos em que as minhas pálpebras estão para se encontrar, dou-me por vencida, prendes-me, amordaças-me, subjugas-me, afogas-me no teu sabor, derretes-me com as tuas mãos, enrolo-me em cada pedaço do teu corpo, pois é em cada um deles onde posso sentir a tua alma. E a tua alma não tem limites, continua para além do teu corpo, do teu cheiro, do teu abraço. 


Saturday, March 31, 2012

A tua camisola


Vou roubar a tua camisola. Vou tirar-ta, devagarinho. Chegar os meus lábios ao teu ouvido, para que não te retraias. Ainda estou aqui. Vou servir um vinho, acender as velas, abrandar a música. Limitar a luz ao indispensável. Vou desviar os objectos do caminho. Preparar um espaço próprio. Vou roubar essa camisola do teu corpo. Quero vesti-la, senti-la sobre o meu. A desenhar os contornos da minha pele nua. Deixar que o teu cheiro se envolva no meu e que se transforme em algo só nosso. Porque o teu cheiro adultera os meus sentidos. Porque o sinto nas minhas mãos, no meu cabelo, na minha roupa, a qualquer hora do dia. Quero esse cheiro que é teu. Quero fazê-lo meu. Esse cheiro que te denuncia quando chegas, aquele que fica quando vais.

Quero o sabor que os meus lábios me pedem e contra o qual a minha razão combate. Vou deixar a razão. Vou largar esta cautela que não sou eu, nem o que faço. Não quero pensar, obriga-me a deixar de fazê-lo.  Faz-me sentir. Consome-me em ti. Rouba-me, captura-me, levanta-me do chão. Faz-me voar. Sem decoros. Sem considerações, sem conjecturas. Mostra-me um sítio teu. Guia o meu caminho. Ilumina o meu sorriso, incendeia os teus olhos com os meus. Despe a minha pele. Rasga-a. Chega onde queres chegar. Respira o meu oxigénio, bebe a minha água, e mata a minha sede da tua boca. Não quero essa delicadeza que me ofende. Agarra-me com duas mãos, com dois braços, com todo o teu corpo.


Se for menos do que isto, devolvo-te a tua camisola.

Thursday, March 29, 2012

Tenho vontade de gritar, abrir as janelas e libertar esta raiva a plenos pulmões, preciso indignar-me com quem me decepciona, dizer as verdades antes que se transformem em mentiras, tenho raiva, tanta raiva das injustiças,  especialmente aquelas que vêm com o lustro no pelo, com vozes brandas e sorrisos falsos. Odeio pessoas egoístas, deviam ser erradicadas da Terra, não acredito num mundo onde prevaleça aquele que ludibria, serrando-nos os pés da cadeiras enquanto não estamos a olhar. Odeio ainda mais as oportunidades desaproveitadas de fazer a diferença, são raras e preciosas, abomino quem as negligencia em prol do "bem comunitário". O bem comunitário estará sempre dependente do desconforto individual, só eliminando a sua causa, poderá o conjunto ser maior que a soma das partes. Tenho raiva de ver o que os outros não vêem, vejo tão claramente que me fere os olhos e sangra a minha crença. Não quero deixar de acreditar porque baseio cada poro da minha existência nisso.
Não há lugar neste sítio onde respira um ror de gentalha oportunista, que devia pagar uma taxa a cada vez que acorda de manhã, e a quem se chama de "sociedade", para os visionários, para o pessoal da ética e da moral, para os lutadores, pior, não há lugar para os sonhadores.
O que estou eu ainda aqui a fazer?

Wednesday, March 28, 2012

A cozinhar, sozinha, morno lá fora, cheiro invasor a festa e despreocupação, queimo um cigarro de vez em quando, intercalo com um episódio de uma série qualquer, pausa maior para o banho, para tratar do cabelo que anda a dever a sua sorte à tesoura, esfoliação, creme corporal, a lua a crescer devagarinho lá em cima, o telefone demasiado mudo, as redes sociais vazias, o silêncio mordaz, a rua a convidar, a vontade a vacilar, falta-me o vinho, era perfeito o vinho a acompanhar-me ao teclado, como pude eu esquecer-me disso, ocupo-me intensamente em não pensar, afugentar os pensamentos, ignorar o carro familiar ao lado do meu, no retorno a casa, os encontros casuais que disparam adrenalina, evitar a despedida, porque vai ser uma despedida, não tenho dúvidas, vai desaparecer a hipótese do acaso, todos os caminhos divergem, só a intenção terá lugar, se a deixassem, mas como a não deixamos, morre ainda criança.
Falta-me o vinho.

Tuesday, March 27, 2012

Merda, tenho saudades tuas. Tenho saudades do teu sorriso, da tua voz. Das tuas gargalhadas, da tua espontaneidade. De contarmos tudo um ao outro. Das boleias, das músicas que escolhias para eu ouvir no teu carro. 
Merda. 
Sai de mim.