Friday, December 19, 2025

Ao teu colo

Penso em ti. 

Não sei porquê. 

 Apenas vens até mim, como um cheiro de infância tresmalhado à boleia de um cachecol velho. Pequenas partes de ti. Como se os fotogramas das tuas expressões pudessem reproduzir a gravidade da tua voz. 

A cadência com que ela me acalma. Serena. O encantador de pessoas. É assim que te retomo. Àquele momento, que num sofá improvisado de sala de trabalho, entre cortinas vermelhas, te falei e te ouvi pela primeira vez. Não conseguia fazer os meus olhos encontrar os teus. Nem tão pouco desviá-los. O sorriso subtilmente desenhado pelos teus lábios e salpicado nos teus olhos. O teu olhar. 

Foi esse sonho, esse maldito que me matou. Não te contei. Nem uma pequenina parte. Melhor assim. Será? 

Tinha-te enterrado num local longínquo do impossível. E agora não te consigo tirar da minha plena consciência. Sei que existes e que estás aí. E uma barreira invisível que nos repele. Que nos atrai. 

 A magnitude da necessidade de te tocar. Ao de leve. Saber ao que sabes. Aproximar-me tanto de ti que não te posso tocar. Suster a minha respiração e aí permanentemente paralisar. Mas como o vento, não te consigo ver, não te consigo agarrar. 

Apenas sinto a tua presença e a falta dela. 

 Onde estás?

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