Saturday, March 31, 2012

A tua camisola


Vou roubar a tua camisola. Vou tirar-ta, devagarinho. Chegar os meus lábios ao teu ouvido, para que não te retraias. Ainda estou aqui. Vou servir um vinho, acender as velas, abrandar a música. Limitar a luz ao indispensável. Vou desviar os objectos do caminho. Preparar um espaço próprio. Vou roubar essa camisola do teu corpo. Quero vesti-la, senti-la sobre o meu. A desenhar os contornos da minha pele nua. Deixar que o teu cheiro se envolva no meu e que se transforme em algo só nosso. Porque o teu cheiro adultera os meus sentidos. Porque o sinto nas minhas mãos, no meu cabelo, na minha roupa, a qualquer hora do dia. Quero esse cheiro que é teu. Quero fazê-lo meu. Esse cheiro que te denuncia quando chegas, aquele que fica quando vais.

Quero o sabor que os meus lábios me pedem e contra o qual a minha razão combate. Vou deixar a razão. Vou largar esta cautela que não sou eu, nem o que faço. Não quero pensar, obriga-me a deixar de fazê-lo.  Faz-me sentir. Consome-me em ti. Rouba-me, captura-me, levanta-me do chão. Faz-me voar. Sem decoros. Sem considerações, sem conjecturas. Mostra-me um sítio teu. Guia o meu caminho. Ilumina o meu sorriso, incendeia os teus olhos com os meus. Despe a minha pele. Rasga-a. Chega onde queres chegar. Respira o meu oxigénio, bebe a minha água, e mata a minha sede da tua boca. Não quero essa delicadeza que me ofende. Agarra-me com duas mãos, com dois braços, com todo o teu corpo.


Se for menos do que isto, devolvo-te a tua camisola.

Thursday, March 29, 2012

Tenho vontade de gritar, abrir as janelas e libertar esta raiva a plenos pulmões, preciso indignar-me com quem me decepciona, dizer as verdades antes que se transformem em mentiras, tenho raiva, tanta raiva das injustiças,  especialmente aquelas que vêm com o lustro no pelo, com vozes brandas e sorrisos falsos. Odeio pessoas egoístas, deviam ser erradicadas da Terra, não acredito num mundo onde prevaleça aquele que ludibria, serrando-nos os pés da cadeiras enquanto não estamos a olhar. Odeio ainda mais as oportunidades desaproveitadas de fazer a diferença, são raras e preciosas, abomino quem as negligencia em prol do "bem comunitário". O bem comunitário estará sempre dependente do desconforto individual, só eliminando a sua causa, poderá o conjunto ser maior que a soma das partes. Tenho raiva de ver o que os outros não vêem, vejo tão claramente que me fere os olhos e sangra a minha crença. Não quero deixar de acreditar porque baseio cada poro da minha existência nisso.
Não há lugar neste sítio onde respira um ror de gentalha oportunista, que devia pagar uma taxa a cada vez que acorda de manhã, e a quem se chama de "sociedade", para os visionários, para o pessoal da ética e da moral, para os lutadores, pior, não há lugar para os sonhadores.
O que estou eu ainda aqui a fazer?

Wednesday, March 28, 2012

A cozinhar, sozinha, morno lá fora, cheiro invasor a festa e despreocupação, queimo um cigarro de vez em quando, intercalo com um episódio de uma série qualquer, pausa maior para o banho, para tratar do cabelo que anda a dever a sua sorte à tesoura, esfoliação, creme corporal, a lua a crescer devagarinho lá em cima, o telefone demasiado mudo, as redes sociais vazias, o silêncio mordaz, a rua a convidar, a vontade a vacilar, falta-me o vinho, era perfeito o vinho a acompanhar-me ao teclado, como pude eu esquecer-me disso, ocupo-me intensamente em não pensar, afugentar os pensamentos, ignorar o carro familiar ao lado do meu, no retorno a casa, os encontros casuais que disparam adrenalina, evitar a despedida, porque vai ser uma despedida, não tenho dúvidas, vai desaparecer a hipótese do acaso, todos os caminhos divergem, só a intenção terá lugar, se a deixassem, mas como a não deixamos, morre ainda criança.
Falta-me o vinho.

Tuesday, March 27, 2012

Merda, tenho saudades tuas. Tenho saudades do teu sorriso, da tua voz. Das tuas gargalhadas, da tua espontaneidade. De contarmos tudo um ao outro. Das boleias, das músicas que escolhias para eu ouvir no teu carro. 
Merda. 
Sai de mim.

Monday, March 26, 2012

É engraçado, como as coisas são. Num dia estamos orientados para um único objectivo, focados numa única pessoa, apaixonados, embevecidos, cegos, motivados, dispostos, pacientes, enlouquecidos, embrutecidos, e no outro.. já não. Tudo muda. Com um estalar de dedos. 
Comigo não foi tal qual assim, mas foi perto. Ele disse-me que eu tinha demasiada paciência. Que esperava demasiado das pessoas. Que dava em igual medida. A medida é "demais". "Punha-me a jeito". E quando percebi isso, vi-me numa posição em que não esperava ver. Várias vezes arranquei o sentimento do peito e pu-lo numa cadeira ao pé da minha mala, só para o poder ouvir e aconselhar, porque me preocupava genuinamente com a sua cabeça confusa, com as coisas fabulosas que ele não via sobre si. Porque me partia o coração vê-lo desamparado. Ele não estava preparado, para mim, para ele, para a mudança, para a vida. E eu queria ajudar. Afagar a sua cabeça, deitá-lo no meu colo, e dizer-lhe que ia ficar tudo bem.
Mas percebi que afinal não era bem assim. Era tudo uma questão de perspectiva.
Afinal ele estava preparado para dar tudo, para investir tudo, para se atirar de cabeça, para ir à luta. Somente não comigo. 
Tentei ainda fazê-lo entender que a minha amizade não podia ter continuação. Para que não estranhasse a distância. Ele ignorou a minha explicação. Mas eu já tinha entrado no processo erradicação, que normalmente demora a ser encetado, mas uma vez iniciado, é para mim irreversível.
Não sinto mágoa, já. Porque na realidade não perdi muito. Nem na sua amizade soube estar à altura, não procurou ajudar-me, preocupar-se com o meu bem-estar, sentimentos, necessidades. Daí que, na realidade, eu não precise daquela amizade, também unilateral. Mas não o cobro, o que dei, dei sem querer nada em troca. Para mim fazê-lo é retorno suficiente.
É natural que não irei conhecer as suas novidades, as suas mudanças, não darei conselhos sobre novos amores ou o futuro profissional. Não tenho vontade de o seguir. 
E com isto, encerro este assunto.
Estou bem, agora sim, bem , serena, aliviada. Porque me libertei dessa expectativa inconcretizável. Percebi finalmente que "fui o que fui". Não foi especial, não foi diferente, não foi importante para ele. A vida é assim mesmo. 
Agradeço o enorme ensinamento. Agradeço o empurrão. Move on. And so I did.
Já não sinto amor, paixão, tesão, o que seja. Sinto como a um estranho que não conheço e ao qual nada me leva a querer conhecer.
Fecho um capítulo. E abro outro.

Quando nos Apaixonamos

Quando nos apaixonamos, ou estamos prestes a apaixonar-nos, qualquer coisinha que essa pessoa faz – se nos toca na mão ou diz que foi bom ver-nos, sem nós sabermos sequer se é verdade ou se quer dizer alguma coisa — ela levanta-nos pela alma e põe-nos a cabeça a voar, tonta de tão feliz e feliz de tão tonta. E, logo no momento seguinte, larga-nos a mão, vira a cara e espezinha-nos o coração, matando a vida e o mundo e o mundo e a vida que tínhamos imaginado para os dois. Lembro-me, quando comecei a apaixonar-me pela Maria João, da exaltação e do desespero que traziam essas importantíssimas banalidades. Lembro-me porque ainda agora as senti. Não faz sentido dizer que estou apaixonado por ela há quinze anos. Ou ontem. Ainda estou a apaixonar-me. 

Gosto mais de estar com ela a fazer as coisas mais chatas do mundo do que estar sozinho ou com qualquer outra pessoa a fazer as coisas mais divertidas. As coisas continuam a ser chatas mas é estar com ela que é divertido. Não importa onde se está ou o que se está a fazer. O que importa é estar com ela. O amor nunca fica resolvido nem se alcança. Cada pormenor é dramático. De cada um tudo depende. Não é qualquer gesto que pode ser romântico ou trágico. Todos os gestos são. Sempre. É esse o medo. É essa a novidade. É assim o amor. Nunca podemos contar com ele. É por isso que nos apaixonamos por quem nos apaixonamos. Porque é uma grande, bendita distracção vivermos assim. Com tanta sorte.
Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Público (14 Fev 2012)' 

Sunday, March 25, 2012

Vários pontos finais, duma só vez, vários parágrafos de seguida, várias linhas novas por escrever.
Porque às vezes precisa ser de rajada.

Eu, comigo mesma.

Saturday, March 24, 2012


Finalmente conseguiste que eu desistisse. Desisto. 

Finalmente senti também essa dormência. Porque já não te conheço. Já não tenho vontade sequer de te acompanhar na amizade. 

Só desejo que algo de positivo resulte para ti neste processo.

Thursday, March 22, 2012

Estou a ficar cansada. Cansada de me esforçar para que não desistas de ti. Cansada de te mostrar as asneiras que estás a fazer com a tua vida, de te repreender para que acordes para a vida, para que vivas as coisas boas à tua volta. 
Continuas a afastar-te, a tentares por tudo seres uma má opção, a pintar-te num quadro negro para que as pessoas possam desistir de ti, sem que sejas tu a tomar a decisão de não te envolveres. Tens medo. Toda a gente tem medo. A vida é tão imponderável, tão improvável, que é um crime quereres arrumar tudo em compartimentos. 
Hoje acordei a pensar que gosto de ti, com um sorriso espontâneo nos lábios.
Mas a tua displicência fez-me mudar de ideias. O que posso eu fazer? Se queres muito, eu desisto de ti.
Só espero que não mudes de ideias. Vai ser tarde. Já o é.

Wednesday, March 21, 2012

Foi bom, nada mais a acrescentar. Voltei a apaixonar-me, repesquei vontades antigas. Quero mais.

Tuesday, March 20, 2012

Está na altura de abrir o meu peito. Sim, vou procurar-te, deixar de fugir. Hoje vou apaixonar-me por ti. Sem freios.
It's time.
Aimee Man - Deathly
É preciso matar as pessoas. É preciso deitar fora o amor que temos por elas, é preciso conhecermos a nossa existência sem elas. É preciso nos esquecermos da importância que têm na nossa vida e dos pormenores únicos das cumplicidades que com elas construímos. É preciso apagarmos as pequenas memórias, os gestos, os sorrisos, é preciso que as suas vozes sejam apenas sons, é preciso esquecermo-nos do beijo, do gosto, do sabor que elas têm. É preciso convencermo-nos de que não o apreciamos. É preciso fazer viagens, solitárias, e tirar da cabeça, de uma vez por todas, que tudo pode voltar atrás. É preciso desistirmos delas e acreditar que é melhor assim. É preciso um processo. Que dentro de nós seja irreversível.
É preciso voltar-me a apaixonar-me todos os dias, por alguém que não sejas tu. 
Preciso de voltar a ser eu, antes de ti. É preciso correr em passadas largas, sem olhar para trás, para outro sítio, para outras terras, para outras pessoas diferentes. É preciso fugir do sentimento. É preciso agarrar a razão. Escrevê-la num quadro, pendurá-la num espelho, para que me veja dentro dela, todos os dias. 
Será preciso morrer e matar, e nascer novamente, para que definitivamente eu deixe de te conhecer.

Monday, March 19, 2012

Starting over



Está a doer. Ainda está a sangrar. Ainda me custa, tenho um ardor no peito que não consigo aliviar. O meu corpo queixa-se por cada movimento que faço. Ele só querer parar.
Só quero arrancar o peito do sítio e atirá-lo contra a parede, matá-lo de vez, certificar-me que ele não volta a respirar. Não tão cedo. Não quero sentir isto, não por estes motivos.
Não tens razão, eu sei que não tens. E mesmo assim, tenho de aceitar. Não te devia ter deixado entrar. Agora não consigo despejar-te.
Estou no processo do contra-amor. Odeio-te. Odeio amar-te.
Sai de mim.
Vai para a China, vai para o fim do mundo. Faz essa barba. Muda de perfume. Faz o que for preciso, mas sai de mim.