Vou roubar a tua camisola. Vou tirar-ta, devagarinho. Chegar os meus lábios ao teu ouvido, para que não te retraias. Ainda estou aqui. Vou servir um vinho, acender as velas, abrandar a música. Limitar a luz ao indispensável. Vou desviar os objectos do caminho. Preparar um espaço próprio. Vou roubar essa camisola do teu corpo. Quero vesti-la, senti-la sobre o meu. A desenhar os contornos da minha pele nua. Deixar que o teu cheiro se envolva no meu e que se transforme em algo só nosso. Porque o teu cheiro adultera os meus sentidos. Porque o sinto nas minhas mãos, no meu cabelo, na minha roupa, a qualquer hora do dia. Quero esse cheiro que é teu. Quero fazê-lo meu. Esse cheiro que te denuncia quando chegas, aquele que fica quando vais.
Quero o sabor que os meus lábios me pedem e contra o qual a minha razão combate. Vou deixar a razão. Vou largar esta cautela que não sou eu, nem o que faço. Não quero pensar, obriga-me a deixar de fazê-lo. Faz-me sentir. Consome-me em ti. Rouba-me, captura-me, levanta-me do chão. Faz-me voar. Sem decoros. Sem considerações, sem conjecturas. Mostra-me um sítio teu. Guia o meu caminho. Ilumina o meu sorriso, incendeia os teus olhos com os meus. Despe a minha pele. Rasga-a. Chega onde queres chegar. Respira o meu oxigénio, bebe a minha água, e mata a minha sede da tua boca. Não quero essa delicadeza que me ofende. Agarra-me com duas mãos, com dois braços, com todo o teu corpo.
Se for menos do que isto, devolvo-te a tua camisola.