Monday, August 19, 2013

Voltamos sempre ao princípio

Parece inacreditável que, passados mais de dez anos, eu tenha retomado este blog e conseguido recuperar o seu nome. Foi aqui que tudo começou.
Aqui, e agora, sim. Voltei a casa. Posso agora retomar esta página em branco. 
Tenho muitas histórias para contar. Tenho uma vida inteira. Vou começar devagarinho de onde o deixei. Será um texto a vários actos. 

Era uma tarde de verão (ou seria ainda de primavera? não consigo recordar-me da quantidade de roupa que trazia). Sei que tomava um café queimado, numa mesa de plástico preto na livraria Barata da faculdade, cheirava a livros novos e ao perfume ácido de uma empregada loira. Eu escrevia num caderno espiral azul, páginas lisas, caneta bic. Divagava sobre romances imaginários e impossíveis. Ouvi uma voz. Duas mesas à minha frente, um rapaz de calções com bolsos falava com duas miúdas sobre viagens. Levantei os olhos dos meus rabiscos e fixei os dele. Ele não reparou em mim. Os seus olhos, de um castanho profundo, brilhavam, sorriam, davam vida aos seus contos. Das mãos que se moviam para contextualizar lugares, pessoas e sons, saiam dedos rectos, longos, intelectuais [não podia imaginar que essas mãos um dia me pudessem vir a tocar]. A certeza e a segurança no seu texto. Talvez a força no olhar. A determinação na sua voz. Não sei o que foi, se uma daquelas coisas, ou conjunto de todas elas. Não sei como, nem porquê. Tinha 22 anos e tinha-me apaixonado naquele momento. Mal sabia que me tinha deixado cair, sem querer, num precipício. Que tinha encontrado o homem da minha vida. 

Olhando para trás, assomam-se lágrimas aos meus olhos. A saudade. A leveza da ignorância do que estará para vir dali para diante. Tudo ali era possível no meu imaginário. Tudo. Menos que aquele homem inatingível viesse a olhar para mim. Não me passaria pela cabeça a história que iríamos viver juntos. 




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